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15/11/09

'Cos It's Good For You

Eu devia ter planejado uma trilogia, porque falei aqui sobre a tendência do bem que vem sendo vista nas ações estratégicas de grandes marcas, aqui sobre ações que focam na preocupação com o lugar em que vivemos e agora vou falar de ações que colocam nosso bem-estar em primeiro lugar.

Não, as marcas não ficaram boazinhas de repente. Elas lucram com isso, é claro. É uma união do útil e do agradável: a marca mostra a você uma maneira de viver melhor e você, por identificação e até uma gratidão que pode não ser tão consciente, mas está lá, vira defensor da marca. Entende? Mais do que consumidor, defensor da marca.

Com a vida corrida que a gente leva, tem muitos planos que a gente traça na virada do ano e, ao longo dos meses, enterra, porque tem TANTA coisa pra fazer, tão pouco tempo e... ai, que preguiça. Ninguém aqui é burro, todo mundo sabe que, se tivermos disciplina, conseguimos tudo. Mas vai falar isso pra mim no meio do trânsito de um dia de entrega de job graúdo bem na hora em que o carro resolve fazer um barulho estranho e todo mundo na agência começa a ligar pra perguntar se você está chegando.

Agora, se nessa hora, alguém disser pra você que pode te ajudar a fazer um bem à sua saúde gastando só 5 minutos do seu dia, você entra nessa ou não? Provavelmente sim, porque nem a preguiça do Macunaíma deixa de considerar 5 minutinhos para aplacar uma culpa interior, my friend.

Atire o primeiro donut caramelado quem nunca se inscreveu em uma academia no plano semestral e não apareceu mais lá depois de uns 2 ou 3 meses.

Ajude-nos, marcas, a ter mais saúde e qualidade de vida, e ajudaremos você a conquistar novos consumidores.

Simples assim.

Wrong Address - Health City

Essa academia da Bélgica fez uma ação simples de Direct, mas trocando todos os endereços dos destinatários. Assim, os vizinhos tinham que dar uma andadinha até o destinatário da carta que recebeu, pra entregar a correspondência. Só que ele também recebia a sua, entregue por algum vizinho que também teve que dar uma andadinha até ali e... ora, e todos eles fizeram um exercicinho que seja. Ao abrir a carta, descobriam a "pegadinha do bem" e liam sobre como é saudável fazer exercício, já que a gente tá cada vez mais sedentário e tal.

Quer dizer, o cara já tem ali uma vontade de ser mais saudável. A correria diária e as facilidades dos gadgets ajudaram o fator Macunaíma a se manifestar com força. Na hora em que a academia faz uma coisa dessa, em que é mostrado, na prática, como é possível disponibilizar um tempinho do seu dia pra fazer uma coisa que te faz bem... o cara vai!

Por que a marca fez isso? 'cos it's good for you. E isso gera novos e apaixonados consumidores.

Planejamento Doméstico - Omo

Como Omo pode ajudar as suas consumidoras a fazer, na prática, o que conceitualmente a marca incentiva: investir na educação e saudável desenvolvimento dos seus filhos?

Pois a marca desde julho disponibiliza uma ferramenta de orçamento doméstico que pode ser baixada aqui e tem como objetivo ajudar o planejamento das despesas mensais, organizar melhor os gastos e assim poupar dinheiro para garantir a melhor educação e qualidade de vida às crianças da casa.

Além de tudo, a ferramenta está linda e confortavelmente encaixada na campanha da marca, que ressalta o custo X benefício, ao invés do preço final isoladamente.

Agora me diga, tirando a Xuxa, qual mãe nunca se sentiu culpada por não ter tempo de sentar e organizar as finanças de maneira decente? Agora Omo mostra que é fácil e, veja: gratidão a caminho = consumidora apaixonada = defensora da marca.

5 Min. Walk - Au by KDDI 

Aqui, uma fabricante de celulares resolveu bater de frente com a idéia de que mais tecnologia = mais sedentarismo. Lançou um aplicativo que transforma o celular em um podômetro/contador de calorias. À medida em que a pessoa que está carregando o celular anda, o bichinho vai contando os passos e as calorias queimadas (pra quem se interessar, o iPhone também tem uns aplicativos desses, bem legais).

A campanha incentiva uma caminhada de pelo menos 5 minutos por dia e vai além, criando uma rede social de walkers. Ali, todo mundo pode compartilhar seus resultados, a contagem de calorias global vai aumentando, fazendo com que os amigos vão incentivando outros amigos e a marca ainda destaca aqueles que mais fizeram suas caminhadas valer a pena (maiores incentivadores).

Por quê? 'cos it's good for you... e também para a marca, a.k.a. vendas

Operação Biquíni - Nestlé

O principal benefício de Nesfit é ajudar a consumidora a emagrecer/manter a forma de maneira saudável. E o verão vem aí. E no verão, como todo mundo sabe, o objetivo de 11 entre 10 mulheres é poder ir à praia desapegada da canga, não é mesmo? Não é à toa que, nos meses que antecedem o verão, as academias começam a bombar (pra parar de bombar nas águas de março...)

O que Nesfit fez então? Lançou a Operação Biquíni, um programa de 14 dias que ajuda a consumidora a chegar no verão em forma e usando biquíni sem a maldita canga. Claro que as dicas e cardápios de alimentação saudável destacam os produtos da marca. Afinal o programa tem a proposta de ensinar a ficar saudável o ano todo.

Good for you! E pra marca também.

É uma abordagem muito inteligente.

Fontes: HealthCity, Omo, Au by KDDI, Nesfit, Nesfit.

07/07/09

Cuidado Com a Visão de Túnel

Dar aulas é bacana. Você se pega desenterrando exemplos que nem imaginava terem sido tão importantes na sua carreira. Hoje, sabe-se Deus por quê, veio à minha cabeça uma vez que ouvi o Olivetto* falando que, na verdade, na maioria das vezes, o próprio cliente tem a solução para o problema. É que ele não consegue enxergar. Sorte nossa, que temos outra forma de olhar, e conseguimos ver claramente o que ele não está vendo (enquanto ele vê claramente coisas que nem entendemos, mas ok, não vamos também nos empolgar e puxar saco de cliente aqui, que é contra nossa religião! eheheh). O fato é que, muitas vezes, a solução vem de bandeja, no meio do relato, no meio do comentário da pesquisa. A informação está ali, esperando um Planner enxergá-la. Tantaraaaaaaaaaaaaaaam. É nóis.

Muito bem. Da mesma forma em que a solução está clara em muitos discursos de cliente sobre o problema, existem ações prontas, esperando para serem detectadas e desenvolvidas. O negócio é o tantaraaaaaaaaaaaaaaaaam.

E o momento tantaraaaaam é tão difícil de acontecer porque, sempre, sempre, sempre, a gente está tão focado nos prazos dementemente curtos, nas refações imbecis, nas reuniões improdutivas e coisas do gênero, que tomam nosso dia e nossa energia e bom humor, que aparece a síndrome da visão de túnel: você fixa o olhar no follow-up e acaba não conseguindo captar, logo de início, as oportunidades emitidas pelos próprios consumidores, que vão pipocando aqui pelos lados, fora da área em que você está prestando atenção.

Aí vem o concorrente e aaaaaaaah, meleca! Cria uma ação maravilhosa. Droga, eu nem consigo sair do "1000 +" do Google Reader, tenho um milhão de refações, droga, como assim?

Cuidado com a visão de túnel. Por exemplo: estamos nas redes sociais (nem que seja pra ver como funciona), estamos vendo como as pessoas usam as redes sociais; estamos no Twitter, estamos vendo como as pessoas (e artistas que jogam bacalhau) usam o Twitter; estamos online o tempo todo.

Veja alguns exemplos de ações que estavam prontas, só esperando chegar um Planner e... tantaraaaaaaaaaaaam:

Doritos

Já virou clássico e eu já mereço uma grana de patrocínio, de tanto que dou essa ação de exemplo nas aulas (e mesmo aqui, esse deve ser o terceiro post, no mínimo, que cita a marca). Acontece que - vou fazer o quê? - é sensacional.

Em setembro, falei, nesse post aqui, sobre pesquisa 'quebra-galho' feita no Orkut (muito útil no dia-a-dia de um Planner BTL, by the way). Um mês depois, saiu a ação de Doritos. Que saiu exatamente da observação de alguém de que, no orkut, tem um monte de comunidades pedindo Doritos de 5 kg, 50 kg, 100 kg.




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Starbucks

A Starbucks é uma das marcas mais mencionadas da rede. Se você atendesse os caras, você não ficaria ligado no que estão falando, no que está acontecendo, no que estão postando? Pois, tantaraaaaaaam: surgiu uma ação para transformar fãs em consumidores efetivos e regulares. Ou seja, transformar todo mundo que fala da marca (eram 1,5 milhão no FaceBook e 183 mil no Twitter, depois da ação, hoje, são 3,4 milhão no FB e 246 mil no Twitter) em pessoas que compram produtos da marca.

Todo ano rola a seguinte disputa: o povo tem que tirar uma foto da decoração de Natal das lojas da rede e postar na internet. Quem postar primeiro, ganha. Então por que não transformar isso em uma Promo? Foi o que fizeram: colocaram vários painéis diferentes da marca nas lojas e premiaram com produtos os primeiros que postaram sua foto, via Twitter, em frente a esses painéis.

Mercedes-Benz

Olha só, tava quicando: passeando pelo Flickr, a agência se tocou que havia cerca de 100.000 fotos de carros da marca em páginas de pessoas de todo o mundo. Porque acham bonito, porque o clique era incrível, mas principalmente porque existe uma relação emocional entre os donos dos carros e a marca.

Tantaraaaaaaaaaaam: eles entraram em contato com alguns desses fotógrafos, pedindo para que fosse enviada a imagem, para ser publicada, junto a um depoimento sobre aquela foto. As fotos e depoimentos, reunidos, geraram um livro, que foi enviado a vários consumidores Mercedes-Benz.


Junto a esse livro, um cartão-resposta, convidando as pessoas para fazerem parte de um portal online, "My Mercedes", onde poderiam subir suas próprias fotos e depoimentos. Isso vira uma rede social de donos de carros Mercedes em forma de álbum de fotos, criando participação e ajudando a gerar brand lovers. Tanto que começaram a surgir ali fotos do livro - não fotos que fazem parte do livro, fotos mostrando o próprio livro.

Uma segunda edição do livro, inicialmente não planejada, vai sair esse ano.

Eu sei. É foda. Além de tudo o que temos pra nos preocupar, ainda vamos ter que ficar prestando atenção no que estão fazendo por aí? Ora, sim. Life is hard. E ser Planner é isso. Ou não?

*eu cito muita gente da Velha Guarda da Portela Publicitária, porque comecei nessa área no final da década de 80 (entrei na ESPM em 88). Nessa época, a gente tinha, em ordem crescente, o Nizan, o Julio Ribeiro, o Olivetto e Deus, em primeiro por um milésimo de segundo. O resto era resto.

Fontes: a ação de Starbucks eu vi aqui e aqui e a de Mercedes está no site do Promo Lions (só para cadastrados)

29/06/09

A Tendência do Bem

Tudo bem que o pessoal que criou e produziu o Whopper Sacrifice deve ter ficado pau da vida (eu ficaria) mas, como eu não tenho nada com isso, devo dizer que achei bem interessante a justificativa dos jurados sobre a escolha entre esse case e o de Fiat Eco para levar o GP: “Vamos premiar com GP algo que manda “excluir” um amigo para ganhar um sanduba ou algo que incentiva a direção ecologicamente correta, frente à urgência de salvarmos o planeta?"*

Agora tá rolando uma certa tendência do bem. Falei disso nesse post aqui. Veja só: todos - sinceramente ou só pra fazer bonito entre os amigos - estão procurando direcionar suas ações para o lado positivo, seja para salvar o planeta, para ajudar os necessitados, ou mesmo para melhorar sua qualidade de vida, afinal, não é só com você que o stress tá pegando... Vemos por toda parte reportagens, posts e conversas sobre como você pode reciclar, conservar, economizar e ajudar o planeta, as pessoas e a si mesmo. Fazer o bem está na moda, mesmo que seja para Maria ir com as outras. E, se as pessoas estão nessa, quem deve abraçar a causa como se não houvesse amanhã? Certo: as marcas. E não para ganhar prêmios, que prêmio não resolve objetivo de marketing: é pra vender mesmo que se deve entrar nessa onda.

Porém, tem-se que ter um certo cuidado. Porque, como falei nesse outro post aqui, fazer uma promo dando uma ecobag não significa que você está realmente investindo para ser verde. Reverter uma parte das vendas para a Abrinq em dezembro e nunca mais tocar nesse assunto também não faz muito pela sua imagem a médio prazo. Para conseguir o engajamento dos consumidores, é preciso investir, e investir corretamente, em ações que sejam reconhecidamente eficientes por aqueles que levam o assunto a sério - em vendas e em fazer o bem. Nada de lápis feito de tronco. Nada de mais uma campanha do agasalho. Nada de medir pressão no Ibirapuera. Plataformas bem construídas, my friend, é esse o caminho.

Continuando a fuçar nos vencedores de Cannes desse ano, vi que o GP de Promo foi também por essa linha. Tudo bem que, na verdade, ele nasceu de um briefing que levava a alguma solução que fizesse o bem a toda uma cidade, afinal, a cidade, falida, era justamente o produto em questão. Mas acho que serve como um belíssimo exemplo do que estou falando aqui:

A cidade de Yubari, no Japão, faliu em 2007. Os caras têm uma dívida de US$ 353 milhões e a solução do Governo foi chamar uma agência de comunicação pra arrumar uma fonte sustentável de receita para a cidade e trazer de volta a auto-estima da população**.

A agência descobriu que Yubari é a cidade japonesa com o menor índice de divórcio de todo o Japão e, calcada no conceito "sem dinheiro, mas com muito amor", criou um casalsinho de personagens e divulgou a cidade como destino turístico para os casais felizes reafirmarem seu amor. Disso derivaram vários produtos, uma mídia espontânea foderosa e a dívida já foi aliviada em US$ 31 milhões. Veja aqui o site (em japa) e, abaixo, o videocase***:



Link YT

Mais exemplos inspiradores de ações que mobilizam, positivam a imagem de uma marca e têm, como consequência natural, o objetivo de todos os briefings desse mundo: vendas.

Reality Show de Reeducação Alimentar

Jamie Oliver, aquele chef-celebrity inglês, realizou um projeto de reeducação alimentar em seu programa de TV, chamado Jamie's School Dinners. Ele foi em várias escolas da Inglaterra, com o propósito de mostrar o que andava se servindo para as crianças e encontrar soluções. A série-documentário levou o Governo a mudar o cardápio das escolas públicas, inclusive. Inspirado nessa ação, Oliver e Ryan Seacrest (sim, aquele do American Idol, mas aqui no papel de produtor) resolveram fazer uma série em formato de reality show para promover uma mudança de hábitos alimentares em uma das cidades menos saudáveis dos EUA, com altos índices de obesidade na população. Ou seja, ensinar a população a comer (ao contrário de simplesmente sair proibindo gorduras transgênicas e comercial de fast food). Kudos! E, de quebra, ensinar a quem estiver assistindo ao reality show pela TV a comer. Isso é ou não é uma imensamente ótima oportunidade para uma marca de produto alimentício? (vi aqui)

Mudar Faz Bem

Olhaí. Na mesma linha desse anterior, também um reality show, esse patrocinado pela Nestlé, o que já fica claro, de cara, no próprio nome da atração: Mudar Faz Bem. Deve entrar na grade no canal Discovery Home & Health até o final do ano.

Serão 6 episódios de 30 minutos focados naquelas pessoas que querem adotar um estilo de vida mais saudável, mas não sabem por onde começar: os participantes receberão a ajuda de especialistas e profissionais de saúde para mudarem seus hábitos de consumo e de vida. (vi aqui)







Zuji Beans


Falei dessa ação nesse post aqui e agora vi que ganhou Ouro em Cannes. Mais uma promo leonina : )

A agência de viagens Zuji fez uma ação para mostrar a seus consumidores (reais e potenciais) que, economizando um pouquinho a cada dia, é possível fazer aquela viagem tão sonhada. Para isso criaram uma série de produtos de uso comum, que foram vendidos a apenas 10 centavos. O primeiro foi o feijão em lata. E daí? Daí que, para vender, resolveram não apenas dar o exemplo, como colocar em prática uma forma de ajudar as pessoas a economizar. Veja o vídeo da ação:



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Go Humans Go

Essa também já falei aqui nesse post. A campanha "Go Humans Go" da Quaker tem o objetivo de mobilizar os americanos em torno da erradicação da fome nos EUA através de doações e trabalho voluntário.

Rola um incentivo para que os consumidores façam propostas de projetos que ajudem no combate à fome de sua comunidade. As propostas são enviadas pelo site e os autores das melhores recebem um subsídio de U$ 500 para colocá-las em prática.

E também doação de alimentos: você compra um produto integral de aveia da marca e entra com o código da embalagem no site. Cada unidade de produto comprada gera 10 unidades doadas a famílias carentes, no limite máximo de 1 milhão de unidades.

Com esse tipo de ação você também acaba "resolvendo" o problema de milhões de pessoas, que querem fazer trabalho voluntário, mas não sabem como proceder. É a tendência do bem. E não é pecado nenhum tomar parte dela, porque, afinal de contas, se você fizer uma ação bacana, você estará ajudando também. Ninguém está se aproveitando nem vai ter que conversar com o cramulhão. Acontece o seguinte: nossa missão é saber o que move as pessoas. E tirar o melhor partido disso. Simples assim.


*dei um copy-cole do Brainstorm #9
**fonte: CHMKT
***vídeo do Estalo

17/06/09

Será Que Dá Pra Inovar em Job de Imobiliária?

Job de imobiliária sempre foi meio um patinho feio. A maioria dos Planners/Criativos pega o job já com um suspirinho de "ai, saco". Acho que por conta de não haver muito espaço para inovar. Ou, mais provavelmente, por a gente achar que não tem. Porque olha só: propaganda de empreendimentos imobiliários já virou commodity. Todos fazem e do mesmo jeito. O diferencial fica por conta do, vamos dizer... conceito do prédio, certo? Se a gente tem onde se agarrar, ótimo, o lançamento é feito de maneira que se possa propor alguma coisa que saia um pouco do lugar-comum. Se é só mais um prédio, a gente faz só mais uma comunicação padrão e vai pra casa sem culpa no coração.

Pois muito bem. E aí fico pensando: mas será que a gente não tem que justamente criar um conceito para que até o prédio mais nada-de-mais possa surpreender em algum aspecto e se destacar da manada? Eu tô, inclusive, falando de criar um conceito ANTES de escolher as mídias. Achar um jeito de as pessoas pararem para interagir com aquilo. E daí achar os melhores canais.

Ah, mas é difícil propor coisas novas pro cliente, que normalmente é tradicional e blá blá blá. Primeiro: se fosse fácil, não precisavam de você. Segundo, pensa assim: se a Santa Clara receber um job de imobiliária, eles vão propor um anúncio no jornal com uma plantinha estilizada e pronto, tchau, fui, beijo nas crianças? Ah, duvido, mas duvido muito mesmo.
Uma das coisas mais legais da nossa profissão é poder transformar um job patinho feio em uma coisa bacana. É difícil, por isso é legal. Quer moleza, senta no pudim.

Alguns exemplos que me fizeram pensar isso ultimamente - cases que acharam um diferencial - para o bem ou para o mal - mesmo vendendo a mesmíssima coisa que todo mundo:

Praia em Sampa

O conceito aqui era que o prédio tinha clima de praia. Soltaram uns surfistas pela cidade de São Paulo, em uma ação de guerrilha muito bacana:



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Quando você entrava no site, descobria do que se tratava (eu lembro que fiquei de queixo caído quando vi que era um empreendimento imobiliário) e ficava sabendo de toda uma programação de, digamos, eventos praianos que rolavam no local, como por exemplo concurso de esculturas na areia, um jeito de levar as pessoas até lá sem muito da defesa "anti-vendedores" que todos temos dentro de nós.


Prepare Seu Saque

O prédio tem quadra de tênis? Puxa, que bom, ele e mais um milhão deles. Veja: este prédio era o único na Zona Leste (SP) com quadra de tênis. Então é só dizer isso no anúncio com plantinha estilizada? Não. Primeiro jogaram várias (muitas) bolinhas de tênis pela Zona Leste, com site e telefone. As pessoas achavam as bolinhas e descobriam o prédio. E tinha mais: era só ir até lá para participar de uma brincadeira: acertando a bolinha no buraco de um painel, com a ajuda de uma raquete de tênis (ou não), o cara levava, na hora, uma TV.



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Pode Entrar Que a Casa É Sua

Olha só: é um anúncio. Ué. Então não inovaram, anúncio é o que todos fazem. Ah sim, mas aqui inovaram na forma do anúncio. Lembra que falei que o importante é achar um conceito que chame as pessoas a interagirem ANTES de escolher os canais? Aqui, no final das contas, o anúncio era mesmo a melhor solução. Mas tinha um conceito.

Em um deles, vc abria uma portinha e entrava na sua casa que, na verdade, é um clube, em que vc escolhe o que quer fazer:


No outro, vinha uma cartela de adesivos pra você decorar sua casa como quiser. Sabe aquele lance "é meu, decoro como quiser, faço o que quiser"? Então:

I Love Tribeca

Aqui o conceito já veio da imobiliária, que criou, em Porto Alegre, um prédio chamado Tribeca, em referência aos lofts espaçosos, style e janeludos do bairro-xará em NY, mirando nos jovens, solteiros em ascenção.

Toda a verba foi então usada para fazer um flash-bar - um bar pop-up que funcionou por 15 dias no próprio local da obra. A divulgação foi guerrilheira, com distribuição de adesivos em bares, projeção em prédios, ambulantes vendendo incensos e moletons "I Love tribeca", abordagem de uma equipe fake de TV etc. Tudo pra criar um hype e, assim, fazer o bar bombar.

Os curiosos eram direcionados ao site, se cadastravam para descobrir o que era, afinal, esse "I Love tribeca" e, logo depois, onde diabos era esse bar tão falado... Depois dos 15 dias, aí, sim: todo mundo cadastrado recebeu um e-mail marketing revelando que o bar foi uma homenagem a um prédio que estava sendo lançado, com o mesmo clima boêmio-descolado.

Saia do Cinza

Esse também foi em Porto Alegre: o conceito de empreendimento imobiliário que promove mais qualidade de vida à sua família não é exatamente inédito. Aqui a venda era de terrenos em uma área mega arborizada e tal e, para isso, fizeram uma promo em formato de reality show: era entrar no site e dizer "por que você quer sair do cinza?". Os autores das melhores respostas participavam da brincadeira (tosca, desrespeitosa e cruel, mas... como todo reality show e similares): quem aguentasse mais tempo dentro de uma caixa cinza de 3 metros quadrados onde não podia se fazer nadica de nada (incluindo encostar nas paredes) levava um terreno de 250 m2 no valor de R$ 50.000.

Tecnisa no Twitter


... isso tudo sem falar na Tecnisa, que acaba de comemorar a primeira venda de apartamento via Twitter.

SEMPRE dá pra inovar. Até mesmo em segmentos em que parece impossível. Tente. Você automaticamente terá uma chance de 50% de fazer um mega case bacana. Se você não tentar, você sai mais cedo, é verdade... e terá zero% de chance de fazer uma coisa legal.

UPDATE: acabei de ver esse aplicativo da Tecnisa

Fontes: alguns cases eu já tinha falado aqui no blog mesmo. Outros eu achei (info, fotos, vídeos) aqui, aqui e aqui

08/06/09

Você Não Gosta, Mas Seu Target Gosta... Então Abraça!

E aí você está lá naquela reunião de brainstorming com todo mundo de todos os departamentos, incluindo a tiazinha do café, quando alguém propõe "vamos usar bexigas!".

Atire o primeiro job quem nunca pensou em se aposentar e viver da plantação de rabanetes hidropônicos na varandinha nessa hora! Be-xi-ga.

Só que tem o seguinte: as pessoas fazem isso:


E ninguém encosta um revólver na cabeça delas, elas fazem porque querem. Então é porque elas gostam.

Tá, a gente não vai pôr no portfólio - provavelmente vai negar até a morte que aprovou aquilo -, vai tentar demover as pessoas da idéia, mas... vai acabar admitindo que tem vezes que funciona.

Talvez bexiga seja um pouco radical. Calma, respira. Tá bom, coloca só em endomarketing e feirão de carro, mas pensa antes de detonar. Só um pouquinho, vai... Pensa na adequação de target. Classes baixas, por exemplo, gostam. Crianças de qualquer classe gostam. Não seja preconceituoso.

Então deixa a bexiga pra lá e pensa em estátua. Tem coisa mais batida? Tem estátua viva em tudo quanto é parque. Você já passa batido por elas, desviando do povo que fica olhando... epa! Povo que fica olhando? Taí: funciona então.

Todo mundo já fez um anúncio com estátua. A gente brincava de estátua quando era criança. Nem pomba mais aguenta estátua. As pessoas fazem intervenções (geralmente) bem humoradas em estátuas em tudo quanto é lugar, como por exemplo, essa aqui:



Então, pensa comigo... Vai, espana o preconceitinho aí e olha só dois exemplos bacanas de ações usando estátua:

De uma delas eu falei no UoD, é de Canon.
Para divulgar sua câmera compacta que traz a tecnologia de estabilização de imagem, a Canon colocou estátuas humanas, em locais perto de seus PDVs, simulando justamente essas situações de ação e movimento em que fica meio impossível conseguir uma foto sem tremidos indesejáveis.



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E uma ação de guerrilha, simples e bacaninha: para divulgar os preços promocionais na alta temporada, a Virgin Airlines colocou malas personalizadas em várias estátuas, com a mensagem "everyone is going on a Virgin holiday":


É só pensar assim: se existe por aí, é porque tem alguém que gosta. Se esse alguém for seu público-alvo, não interessa se você gosta ou não, entende? Não é você que vai comprar. Você tem é que vender. Sacou a diferença?

03/06/09

Mi Case Su Case

Não há dúvida de que, no Mi Case, Su Case 2009, evento do Grupo de Planejamento, foram apresentados cases de cair o queixo e morrer de inveja. Indiscutível a genialidade do Beta-7, apresentado pelo Ken Fujioka ou a relevância do case do aplicativo de Bradesco Seguros apresentado pelo Fabiano Coura. Mas tem dois cases lá que eu pago um pau de um tamanho descomunal e que faço questão de repetir aqui, para quem não pôde ir lá na ESPM ontem.

O primeiro foi apresentado pela Rita Almeida, que teve não só o privilégio de trabalhar e aprender com ninguém menos que o Júlio Ribeiro, "o" cara de Planejamento, como de participar do case de Brastemp - Não Tem Comparação.

Resumo da ópera: Brastemp tinha uma imagem aspiracional, as donas-de-casa economizavam até um ano para poderem ter um eletrodoméstico da marca. E aí apareceu a Enxuta, que tinha uma lavadora maluca, que saía andando pela área de serviço quando começava a centrifugar (é verdade, eu tive e ela andava tipo o ET apertado pra ir no banheiro, era um inferno), mas que custava muito menos. Ou seja: não era preciso planejar a compra e fazer sacrifícios.
Quando a curva de vendas começou a se alterar, a Talent teve que reverter a situação e, pesquisando, viu que o concorrente tinha uma grande incoveniência: quebrava. E, mais do que isso, a consumidora atribuía a quebra de uma Brastemp a um azar eventual; e a quebra da Enxuta à qualidade do produto.

Pois bem, eles viram que a solução estava em reforçar a aura de incomparável, mas de uma forma leve e bem-humorada, e não partindo pra briga (gênio). E assim nasceu a campanha "não é assim uma Brastemp" que, quem viu, lembra. Ah, lembra. É maravilhoso:



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O outro de me corroer de inveja foi a disputa pra ver quem era o melhor, Biro-Biro ou Maradona. O resumo da ópera: a Coca-Cola precisava crescer sua participação em botecos. Não botecos tipo o Filial e o Original; botecos tipo a biboca do Seu Zé ali na periferia, entende? Lugares onde as pessoas vão pra tomar cerveja. Uma pinguinha de vez em quando, mas quem domina ali é a cerveja.

Como aumentar a participação ali, quer me dizer? Pois lá foi a JWT pensar o seguinte: mais legal que o domingo de jogo é a segunda no bar, comentando, tirando sarro dos amigos e discutindo os lances polêmicos. E a polêmica foi a linha que eles escolheram trabalhar. Mas não a polêmica Palmeiras X Coringão, por exemplo, que daria briga e morte no bar na Avenida São João. Polêmicas como Brasil X Argentina, por exemplo. Mais que isso, quem foi melhor, Pelé ou Maradona?

É uma polêmica que, aqui no Brasil e lá na Argentina, não existe. Não tem votação aqui que dê Maradona, nem lá que dê Pelé. A não ser, é claro, como lembrou o Ken, uma votação pela internet, como teve a do Clarín, em que os brasileiros entraram lá e ficaram votando até o Pelé ganhar (aahahahahahaha adoro isso).

Mas a genialidade está no seguinte: o caminho recomendado foi o de pegar essa polêmica... e levar para o lado do bom humor. Seria tudo visto como uma grande brincadeira. Ah, vai! É bo-te-co-xe-xe-len-to. Sensacional!

Aí pegaram um jogador que, como foi dito na palestra, é uma piada pronta. O cara tem aquele cabelo, era meio perna-de-pau e, pô!, chama Biro-Biro.

E assim começou a eletrizante disputa entre os dois (?) craques, com uma campanha super divertida e, principalmente, eficiente. Cada tampinha valia um voto e fez-se uma grande eleição para escolher o melhor. O sentimento "cai, Maradona", como previsto, imperou e foram todos felizes.



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Olha isso (adooooro) - ativação para incitar a participação:



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Tó: minha inveja pra vocês. Paguei um pau.

28/05/09

Além do Discursinho

Em todo, todo, todo briefing o cliente vem com o discursinho de que quer fazer alguma coisa diferente. Vinte e três opções depois, ele opta pelo feijão com arroz mesmo, porque, sabe como é, é tempo de crise, let's play safe. Na crise há que se ter criatividade. Menos em Comunicação. Já ouvi de um cliente um "não inventa" logo depois de um "precisamos surpreender".

É claro que estou generalizando. Com a graça de Deus, tem clientes ótimos que sabem bem o que precisam fazer e outros, sensacionais, que compram a briga junto com a gente. Os resultados são iPods no Palito e Que Que É Issos. Mas quem não se identificou com o primeiro parágrafo que atire o primeiro mouse!*

Essa semana fiquei pensando que Axe utiliza muito bem diversas ferramentas de comunicação mas, no fundo, é um exemplo de "play safe". Ao contrário de Doritos, por exemplo, que deve ter o cliente mais bacana do mundo. Mas ok, a maioria das ações de Doritos é feita lá fora e você acha que não é um exemplo a se ter ao lado de Axe? Beleza, tem a LG.

Então, ao invés de falar do iPod no Palito e do Que Que É Isso, que já viraram hors concours, vamos falar desses outros três exemplos de clientes que queriam fazer alguma coisa diferente.

Eu já falei de Axe aqui e de Rexona aqui. Hã? Rexona? É que é da Unilever e, se você parar pra pensar um minuto, é como se houvesse uma receitinha, o manual "Então Você Vai fazer um 360 de Desodorantes Para a Unilever".

Não é ruim, dá certo, eu já falei bem, e falo, mas a questão aqui neste post é: play safe. É uma formulinha: teaser com blogueiros (robôs na Paulista e no Metrô, mulheres de lingerie lambendo partes de corpos feitas de chocolate, o cara na ponte estaiada) seguido de revelação (projeção na Paulista e o carinha voando pelos céus, blogs "descobrindo" que tinha um Axe Chocolate, mulheres de biquíni correndo para a Ponte Estaiada + vídeo da ação nos blogs), seguido de comercial + site com game ou ação de pulverização.

Até quando vai dar certo? Na próxima ação, o Manual já vai precisar ser revisto, senão as marcas só serão notícia em blogs de Comunicação.

E Doritos? Cara, tudo bem que a maior parte das ações é feita lá fora, mas aqui no Brasil tivemos O Maior Doritos do Mundo. Alguém NÃO quereria essa Promo no seu portfólio? Come on!

Pra quem não acompanhou, não deu atenção, tem Speedy ou estava em coma, vamos a ela:

Por ter observado que havia várias comunidades no Orkut do tipo "Eu amo Doritos" e, principalmente "Queremos Doritos de 5 kg", "Queremos Doritos de 60 kg" e outros malucos, a Elma Chips fez um pacotão de Doritos de 5 kg e mandou para os donos e participantes dessas comunidades. A reação espontânea das pessoas nesses casos é só o máximo, como realmente foi.

Não satisfeitos, fizeram um sacão gigante de Doritos, com nada menos que 132 kg e 3 metros de altura. Cada pessoa poderia dar 3 palpites, no site da Promo, sobre quantos Doritos havia lá dentro. Quem chegasse mais perto, ganhava o sacão gigante que, perceba, não caberia na casa do vencedor. Foi uma loucura. O sacão ficou exposto no prédio da CuboCC, a agência que bolou tudo, e virou o assunto de semanas a fio.

Outras coisas legais que Doritos andou fazendo:

Aqui no Brasil também tem Doritos Lovers, os bichinhos em realidade aumentada que moram no Orkut de cada consumidor que participou e liberou seu Doritos Lovers. Ah, fala sério, o máximo. Porque, quando começou a pegar fogo o assunto "olha! realidade aumentada!" e muita gente começou a usar só pra dizer que sabia que tinha, arrumaram, aqui, um uso promocional, justificado e bacana. Kudos, CuboCC.

E também tem os comerciais criados pelos consumidores, que passam no intervalo do SuperBowl, também tem a Promo para escolher o novo sabor de Doritos que dá ao inventor 1% de participação nas vendas da versão que ele criou.

Sim, tem mais gente fazendo realidade aumentada, sim, tem mais gente customizando sabores, sim, tem vários "o maior do mundo", mas o negócio é que, quando ainda não era tão pop, eles fizeram. É a diferença entre abrir caminho e seguir a trilha aberta (Axe), ainda que, de novo, siiiim, o segundo caso muitas vezes funcione.

E a LG. Ah, a LG. Sabe o que eu acho que é o mais legal da LG? É que eles têm a preocupação de pegar o consumidor pelo esclarecimento. Eles quiseram saber por que as pessoas não compravam tanto TV de plasma e LCD quanto poderiam. Descobriram uma série de mitos e dúvidas e se saíram com essa: Rafinha Bastos e Danilo Gentilli, pré-CQC, falando justamente sobre as besteiras em que a gente acaba acreditando sobre o assunto, por falta de informação. os stand-ups ficavam em um site caça-mitos muito bem feito.

Teve uma ação de guerrilha para celular, que falei aqui, que foi muito bem bolada, mas o mais bacana agora são Os Remotos. De novo, o ponto de partida foi a preocupação de fazer com que as pessoas entendam o que é TV Digital. Porque muito se ouve, muito se fala e o fato é que, se a gente sabe mais ou menos, imagina as pessoas mais desplugadas.


Eles fizeram um site que contém as informações essenciais, um blog e, la pièce de résistance, um seriado. E o melhor é que o formato não é o do Que Que É Isso. É um formato... Os Remotos, uai. Gostosinho de ver, daqueles que, quando a gente percebe, mergulhou na historinha e no site e esqueceu que tava ali dando só uma olhadinha. Kudos, Sinc.

Da próxima vez que falarem "não inventa", argumenta, mostra, conta, fala... e inventa, sim. Faça o cliente ir além do discursinho. Ok, é difícil. É bem difícil. É putamente difícil em vários casos. Mas tenta. Exemplo é o que não falta.

*E, pra você que pensou, "tá, esses cases aí são um em um milhão, vem ver meu follow-up e entrar nas 15 reuniões que eu tenho hoje, rá rá rá", vale lembrar um dos primeiros posts do blog, que você pode (re)ler aqui.

Peguei a foto dOs Remotos daqui

01/04/09

O Caminho da Sua Próxima Ação Pode Ser verde

Momento #prontofalei: mas, como prontofalei agora no Twitter, ecobag virou a nova nécessaire das promoções comprou-ganhou, não é não? Não entendo e nunca vou entender - e, sim, sempre vou fazer discurso pelos corredores de agência até que me abatam a tiros - o que uma pessoa pode sinceramente achar que uma marca ganhe dando um brinde que agregue tão pouco valor.

Eu acho que, se é pra dar nécessaire, melhor não dar nada. Guarda a verba pra, depois de um tempinho, fazer uma ação bacana. Agora, quando a ecobag vira opção porque "é ecológico" e "eu quero agregar esse valor à minha marca", além de deixar o Planner revoltado e gerar um post, é preciso colocar uns pontos nos "i"s:

Ninguém se apropriou do posicionamento de marca 'verde' até agora (a Natura, por exemplo, já nasceu dessa proposta). Isso quer dizer que quem quiser investir nisso tem que se esforçar mais do que fazer um on-pack com ecobag. Tem que realmente comprar a idéia e, com convicção, fazer investimentos beeeem consideráveis em projetos e iniciativas que sejam relevantes. Tem que entender que o consumidor, depois de quase explodir de tanto comprar, está, em especial agora com a crise, começando a perceber que valores mais consistentes têm grande importância.

Portanto, não é mais uma modinha. As pessoas estão realmente, ainda que bem aos poucos, adotando novos hábitos. Existe, sim, se ainda não uma preocupação ativa com as questões ambientais, uma receptividade alta para iniciativas do gênero. Que sejam sinceras, relevantes, gerem envolvimento e deixem sua marca (positiva) no dia-a-dia do cara.

Um bom início são essas lojas de varejo que vi recentemente:

No Invertido, vi esse eco shopping center no Japão. São dois complexos: Mori (Floresta) e Kaze (Vento), com um lago artificial imenso no meio. A energia utilizada é solar, obtida por painéis mega tecnológicos e economizam, com isso, cerca de 20% na emissão de Carbono.

No estacionamento tem até estação para carros elétricos ("
30 min carregando (o tempo previsto para compra) dá para percorrer cerca de 120 km usando 80% da carga").

Ah, mas no Japão também, né? Ok, ok, vamos para mais perto:

O Marinho falou sobre a Green Depot, loja de Nova York que vende tintas que não liberam substâncias tóxicas, lâmpadas que consomem menos energia e produtos de limpeza menos poluentes. As vendas também podem ser feitas a granel, o que incentiva o consumidor a reaproveitar as embalagens e, pra loja, funciona como uma ferramenta de fidelização.

"Pô Robi, mas Nova York não é beeem a nossa realidade". Então vamos ficar em território nacional:

Na Vejinha (SP), saiu uma reportagem sobre três lojas na Rua Harmonia que têm arquitetura ecologicamente correta - ou seja, grandes áreas verdes e projetos que resultem em economia de recursos (prioridade à iluminação e ventilação natural, por exemplo). Na mais legal delas, 6.000 litros de água da chuva podem ser armazenados e depois utilizados na rega das 5.000 mudas de plantas, samambaias, orquídeas e bambus, como em todas as torneiras.

Além do clima do lugar passar bem-estar, a sensação positiva vem também por conta de a pessoa estar fazendo parte de um projeto que faz a diferença.


Mas se você ainda tá lendo com cara de "isso é tudo muito bonito, mas muito alternativo", vamos à Indaiatuba, interior de SP, conhecer a primeira loja verde, do Pão de Açúcar, da América Latina.

E é aqui que entra a parte mais legal dos projetos verdes (os pra valer, não as promos que dão semente): tudo é muito bem planejado. Na loja do Pão de Açúcar, tudo foi pensado dentro do conceito "Reduzir, Reutilizar e Reciclar":


- O estacionamento é feito com concregrama (calçamento que permite que a grama nasça e se conserve e, com isso, o solo absorve água da chuva), tem vagas especiais também para quem tem carro com biocombustível, a álcool e a gás e um bicicletário para funcionários e clientes.

- Estação de reciclagem (como em todas as lojas da rede), lixeiras para coleta seletiva espalhadas por toda a loja e depósito para coleta de pilhas e baterias.

- Caixa Verde: antes até de empacotar, você já pode dispensar as embalagens supérfluas ali.

- Carrinhos de compras feitos com garrafas PET recicladas (de longe, meu item favorito).

- As malditas ecobags não poderiam faltar. Mas pelo menos, aqui, o contexto é total: são dez versões, mais uma adaptável ao carrinho de compras. Fora que o Pão de Açúcar foi o primeiro a disponibilizar sacolas de compras e, em 3 anos (já vendeu umas 200.000 em todo o país).

Tem também outras embalagens, em papelão reciclado (caixas) e papel kraft (sacos e sacolas).

E sacolas plásticas. Eles foram muito inteligentes: em nossa cultura ainda não cabe o hábito, não em volume grande, de dispensar as sacolinhas. Então, o que fizeram aqui foi disponibilizar sacolas recicláveis. São 3 camadas: uma, no meio, feita de material reprocessado (reciclado), e duas, do lado de fora e de dentro, em contato com os alimentos, feitas de material virgem (externo). A textura é mais grossa e a sacola fica mais resistente (aeeee).

- No lugar das bandejinhas de isopor, aparecem as produzidas com fécula de batata.

- Gôndolas feitas com madeira certificada pelo FSC Brasil (Forest Stewardship Council - Conselho Brasileiro de Manejo Florestal)

- Forro com manta isotérmica, que colabora para o conforto térmico interno e, portanto, diminui o consumo de energia.

- Toda a obra, aliás, foi feita dentro do especificado pelo LEED (Leadership in Energy and Enviroment Design): iniciativas que aumentam a eficiência no uso de recursos e diminuem o impacto sócio-ambiental no processo da edificação (diminuição da emissão de resíduos e aumento das áreas verdes, por exemplo).

O resultado é uma economia, no dia-a-dia, de 30% da eneria, 35% da emissão de Carbono, de 30 a 50% de água e de 50 a 90% no descarte de resíduos.

Por exemplo: os balcões frigoríficos e o sistema de ar-condicionado usam o gás ecologicamente correto R404 (amigo da camada de ozônio). E o abastecimento de água é 100% proveniente de fontes renováveis.

- Na comunicação visual, placas com mensagens que estimulam o consumo sustentável, a reciclagem e hábitos saudáveis e quadros informativos a respeito da quantidade de dejetos recicláveis coletados e o destino disso tudo.

- Esse conceito "Reduzir, Reutilizar, Reciclar", aliás, se aprofunda e, além de promover visitas semanais dos alunos das escolas da região, em um programa de informação e conscientização, dá treinamento específico aos funcionários no que se refere às questões sócio-ambientais.

- O nível de satisfação dos funcionários é grande, há redução de problemas de saúde e, por consequência, maior produtividade e melhor qualidade de atendimento no contato com os clientes.

- Programa Caras do Brasil de comércio solidário, com itens produzidos a partir da reciclagem e reaproveitamento de material.

O movimento é meio contra a nossa maré: normalmente parte da empresa, reflete na comunicação ATL e as ondinhas atingem nossas ações de Ativação. Agora, nada impede o movimento contrário, ainda que mais difícil (cadê seu espírito aventureiro?): uma ação aqui, um evento ali, uma proposta acolá, desde que tenha uma argumentação inteligente e, acima de tudo, um porquê, e a coisa pega. Ah, se pega. Informação é tudo. A direção é essa. Agora cabe à gente transformar esse verdejamento em valor pras marcas que atendemos. Em vendas para os produtos. É questão de começar a marcar o território. E nunca, jamais, nunquinha mesmo, fazer discurso vazio, do tipo "vamos dar um lápis feito de madeira reflorestada, porque o pessoal acha bonito essa coisa de natureza". Falamuitossério!

12/03/09

Plataformas (de Comunicação) do Bem

Com tristes exceções, acho que todo mundo tem perfeita consciência do mundo que tem à sua volta. Ou seja: sabemos que a coisa tá preta e sabemos que podemos fazer a diferença. Por outro lado, estamos todos até a tampa de compromissos, preocupações, valores à prova, fazendo nós mesmos malabares pra conseguir levar a vida e a crise.

E esse é justamente um maravilhoso nicho para todas as marcas e produtos. Não o peso na nossa consciência de não estar fazendo nada por quem precisa: mas a vontade que (quase) todo mundo tem de ajudar, só esperando saber como fazer para colocar a mão na massa. Eu posso não ter tempo de me preocupar em ver como posso me voluntariar pra alguma coisa, mas raramente vou dispensar a oportunidade de colaborar, se ela aparecer como mágica na minha frente e isso não exigir de mim que eu saia muito do meu roteiro de afazeres, correto?

Muitas empresas estão fazendo ações supostamente "do bem" por fazer. É bonito, é bom para a imagem, todo mundo está fazendo, os consumidores gostam. Mas ajudar de má vontade, fala sério: melhor ficar em casa. Melhor ficar calado. Melhor pegar seu produtinho e investir em campanhas e ações tradicionais, porque ninguém vai condenar você por isso. É honesto.

Mas na hora em que você, querido cliente, se dispõe a fazer uma ação de comunicação que se proponha a realmente fazer a diferença, é aí que você conquista consumidores da maneira mais profunda que pode existir: você conquista a admiração das pessoas. Você gera mobilização não por interesse, mas por paixão, crença, respeito e gratidão. Priceless.

É positivo cobrar ingressos em forma de alimentos. É eficiente organizar uma campanha do agasalho. É bacana produzir uma série limitada de produtos exclusivos que tenham renda revertida para uma instituição em dado momento. Não acho que são em vão. É claro que não são. Esse dinheiro é gerado e utilizado por quem não o tinha. Mas, sorry: estou falando de business aqui. Não estou falando de ações pontuais: estou falando em campanhas de longo prazo, com pulverizações, com continuidade. Estou falando não em campanhas, mas em plataformas de comunicação do bem que ajudam a construir uma marca.

Como a campanha pela conscientização, prevenção e combate ao câncer de mama, só que vinculada a uma marca. Uma campanha do bem proprietária. Que gera a plataforma de Comunicação em que vai se ancorar uma série de ações. Como qualquer outra. A diferença é que ela tem dois objetivos, não um só, como sempre.

Quer um exemplo? A campanha "Go Humans Go" da Quaker (vi aqui), que tem o objetivo de mobilizar os americanos em torno da erradicação da fome nos EUA. Como? Através de doações e trabalho voluntário. E a marca com isso? Ora. A Quaker, através de seus produtos de aveia integrais gera energia para seus consumidores. Isso é bom para você, certo? Então vamos usar sua energia para fazer o bem a outras pessoas, menos afortunadas.

Come on! É sensacional! Veja como funciona:

- incentivo para que os consumidores façam propostas de projetos que ajudem no combate à fome de sua comunidade. As propostas são enviadas pelo site e os autores das melhores recebem um subsídio de U$ 500 para colocá-las em prática.
No Brasil: Imagine o que tem de projeto de ONG por aqui esperando uma oportunidade dessas.
Seria o mesmo que... um concurso cultural que dá prêmios em dinheiro. Mas, aqui, o ganhador gera "prêmios" com o que receber, a muitas pessoas, iniciando um movimento.

- doação de alimentos: você compra um produto integral de aveia da marca e entra com o código da embalagem no site. Cada unidade de produto comprada gera 10 unidades doadas a famílias carentes, no limite máximo de 1 milhão de unidades.
No Brasil: em uma ação dessas, tendo transparência e controle de para onde vão as doações, a maioria das pessoas, que já têm o produto (categoria) na lista de compras, garantem que ele seja da marca envolvida.
Seria o mesmo que... uma promoção comprou-ganhou. Diante da gôndola, você estica o bracinho para comprar a marca X e, quando vê que a marca Y te dá um brinde na hora, muda de idéia - e de marca.

De resto, a divulgação é como qualquer campanha: evento de visibilidade na largada, PR, ação com trend-spreaders e formadores de opinião, receitas e informações relevantes sobre o produto em um site com relevância etc.

Agora imagina o seguinte: enquanto, nos EUA, 32% dos jovens são voluntários, aqui no Brasil, o número é de 6%. Só que 54% dos jovens querem contribuir com trabalho voluntário. Sabe o que é isso? São cerca de 14 milhões de pessoas. Mais uns 10 milhões de adultos que têm vontade de se voluntariar. E um único problema: não sabem por onde começar, onde ir, a quem recorrer, o que fazer. Talk about potencial de adesão!

Se uma marca toma a frente, temos aí um engajamento master. Temos uma mobilização. E, se isso estiver ligado a uma plataforma de comunicação... uhu!

Outro exemplo: a campanha de adoção de animais da Pedigree. Veja bem: você tem direito à sua opinião. Mas, na minha, não é porque uma ajuda pessoas e outra ajuda cachorros que uma é melhor ou maior que a outra. São dois problemas diferentes. Dois produtos diferentes. Dois core business diferentes. Enquanto uma não tirar da boca de um para alimentar o outro eu vou tratá-las com a mesma importância.

Pois muito bem: a comunicação de Pedigree é toda gerada pelo conceito "Cachorro é tudo de bom" e a paixão dos donos por seus animais. Em uma derivação muito apropriada e relevante, foi criada a campanha "Adotar é tudo de bom".

A oportunidade é: quem gosta de cachorro gosta não só do seu, mas de qualquer cachorro. E, com a campanha, pode:

- adotar um cachorro. A campanha é muito informativa a respeito da condição dos animais no país. Quem tem interesse em comprar um cãozinho pode muito bem mudar de idéia e adotar um bichinho antes que ele vire sabão.
Seria o mesmo que... fazer uma campanha de conscientização e patrocinar instituições de proteção animal. Mas aqui a marca se apropriou. Conceitualmente, é muito mais forte.

- ajudar a condição de vida dos animais abandonados. Enquanto não são adotados, quem quer ajudar, mas não tem como levar um lulu pra casa, pode dar preferência aos produtos da marca, que têm uma porcentagem da renda destinada a ajudar as instituições que cuidam deles.
Seria o mesmo que... uma promoção comprou-ganhou.

A divulgação se pauta em uma espécie de member-get-member emocional, feita por quem aderiu. A marca disponibiliza "ferramentas" para isso: camisetas, produtos digitais etc.

Normalmente quem adere a uma campanha dessas passa a fazer parte do grupo de pessoas que tem paixão incondicional por uma marca. E isso não é o máximo que podemos querer?

Fonte